Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 24 de Fevereiro de 2020

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Me deu um branco

15 de setembro de 2017 às 9h21

A lauda digital, branca e vazia de palavras más, não incentivava a criar um bom tema. A travessura do departamento de ideias justamente essa: soprar uma preguiça sem dó, nas horas em que deveria estar lépida e faceira. E nada das palavras bonitas, ao menos, conexas. Mas nunca é bem assim. A sensação que eu tenho nessas horas de vazio, de branco total, é de que, alguns milhares de neurônios iniciaram um processo de paralisação conjunta. E aí esqueço até de sugestões de amigos para temas e fico a revirar as páginas dos jornais, ou sites, as bobagens das redes sociais e a inspiração sumida no deserto criativo.

O que eu percebo é que sofrermos, desde as primeiras horas do dia, com muita informação negativa. Coisas que antes ficavam ocultas, começaram a escapar das gavetas, dos gravadores e a música das FMs, as agendas que mantínhamos em dia, acabam atropeladas pelo cotidiano deste Brasil às avessas.

Lembro agora a dica que deixaram sobre um sujeito – aquele tipo de marido que toda mulher rejeita – mas que sobrevive a base de muita chantagem emocional. E pergunto a vocês, qual seria o mote? As pessoas continuam casando aos borbotões. De papel passado, festa e bênção nas igrejas. Lá fora, vamos continuar votando, escolhendo sei lá quem para assumir funções importantes para nossas vidas. As parcerias andam perigosas, turvas, mas são fundamentais.

Na semana passada, acordei meio zonzo. Era um verdadeiro bombardeio de notícias pesadas sobre delações, ou a repercussão dos mais de 50 milhões de reais encontrados. Falei com minha mãe e ela tinha a mesma tontura. Não era um gás venenoso a intoxicar a população. Mas a carga de informações de polícia, política e judiciário.

Conversei com a Jaque Manica, na redação d’O Alto Taquari, e disse de peito aberto que não queria mais enviar artigos. Estava achando tudo o que escrevia supérfluo. Muita bagunça séria no Brasil, tanta imoralidade e eu na rotina de gente normal, que erra e acerta, gente que vive cheia de culpas, ou mesmo, sem culpa alguma e age com egoísmo, sem se dar conta que nestes casos, o castigo chega lá na frente, talvez meio tarde para o perdão. Mas a Jaque me convenceu a permanecer. Azar de vocês!

E o vazio? Aos que acompanharam a leitura até aqui, obrigado. Talvez tenham se identificado. O branco das ideias, o torpor da inatividade, só se recupera com um primeiro passo, uma frase inicial para depois abrir a porta que se emperrara para a entrada de todas as cores. As divagações, as reflexões sem dor, como dizia o escritor e colega jornalista Millôr Fernandes nos ajudam, nos dão sobrevida.

Mesmo quando acordamos zonzos de tanta maldade à volta, é muito melhor do que a rendição, o desespero absoluto. Hoje eu venci, amanhã pode ser mais difícil, mas nunca será impossível, desde que estejamos juntos e conectados.

Por daiane