Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 20 de Agosto de 2017

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Meu pai e Napoleão

11 de agosto de 2017 às 9h51

Alguma coisa muito maior poderia estar sendo escrita. Um poema, uma canção. Talvez eu pudesse escrever uma sonata, ou partir direto para uma sinfonia sobre meu pai. Ele adorava música erudita. Foi companheiro de uma maneira muito especial. Pai jovem, aprendeu no tranco a lidar com a presença de uma criança para ser um exemplo positivo. Ele me dizia que definir a paternidade era uma perda de tempo. Isso era coisa que se aprendia no cotidiano.

Às vezes eu olhava homens maduros, casados, com uma prole imensa e comportamento ao avesso ao que se espera na paternidade. Meu pai argumentava que esses sujeitos, na verdade, eram meros bípedes irracionais. Não tinham maturidade para a missão que lhes fora entregue, mas de qualquer forma, deixariam aos filhos – se estes tivessem boa índole – o exemplo do que não fazer. E agradecer pelo dom da vida, que fariam valer a pena.

De qualquer maneira, eu que não sou de citar exemplos pessoais em artigos queria apenas deixar uma dica para outros caras como eu. Que fizeram o possível e aprenderam no jogo duro do cotidiano que essa missão não tem fim. Esses que ainda se preocupam, mesmo quando os filhos vencem barreiras, por saberem que nem sempre se conquista tudo. Esses que outras vezes se apavoram quando percebem, nas crias, defeitos seus.

Reclamam contra a herança genética como se isso pudesse assentar definitivamente o caráter de alguém. Pai erra, pai tropeça, pai às vezes quer chutar o balde. E ainda precisa resolver esses sentimentos indefinidos. Será que fiz tudo errado? Será que eles são assim porque sou autoritário, ou frouxo, ou ausente, ou onipresente. Será que Deus vai me ajudar?

De qualquer maneira, eu penso que o pai ideal humaniza a convivência. Nas etapas de crescimento de um filho, passa de super-herói para a condição de um ser comum e precisa estar atento a essas etapas para não pagar mico com uma capa gasta de herói.

Não quer presente, nem meia, cueca, pijama de listras ou uma Ferrari na garagem. Quer estar presente. Quer ser lembrado na hora do aperto, quando o filho precisa, ou de grana, ou de um conselho para tocar um projeto. Quer ver o filho a vibrar na hora do gol, mesmo que o time escolhido seja justamente o maior rival.

De qualquer maneira, preparei a Abertura 1812 de Tchaikovsky. Ouvirei como o fiz várias vezes ao lado de meu pai. Aprendendo os detalhes melódicos da obra que na verdade, era uma exaltação a Napoleão mesmo tendo fracassado na tentativa de invadir a Rússia. Tchaikovsky sabia que uma batalha perdida não diminuía o talento e ousadia daquele aguerrido general.

Não tenho talento para a estratégia militar, mas, de qualquer maneira, entendo o que o compositor erudito tenha tentado expressar. E espero que muitos pais, não se sintam vencidos pelos próprios tropeços. Errar é parte do aprendizado. Amar é consequência e a compreensão, vem de quem acompanhou desde os primeiros passos a lição de que a vida não é para ser decifrada, mas simplesmente vivida.

Por daiane