Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 20 de Agosto de 2017

O Alto Taquari

Jornal da Semana
Carta Branca

A Escrava Isaura

11 de agosto de 2017 às 9h51

“A escrava Isaura” é o título de um livro escrito por Bernardo Guimarães publicado no ano de 1875. O aparecimento da obra se deu durante a campanha pelo fim da escravidão no Brasil e teve considerável influência para que isto viesse a se concretizar 13 anos depois, em 1888.

Sucede que, a leitura da história de Isaura permitiu olhar a escravidão a partir de outro ângulo. Na vida real, parecia muito normal ter escravos. Todo mundo, se podia ter, tinha. Mas, quando esse tema foi mostrado através da situação da heroína do livro, a crueldade da escravidão ficou evidente. Isaura era simplesmente uma propriedade do seu dono, igual aos cavalos dele ou às suas terras e isto parecia revoltante.

O público leitor da época se compadeceu da escrava e passou a entender melhor a realidade. Este é, aliás, o poder que a literatura tem. As histórias inventadas conseguem mostrar a realidade melhor do que a realidade se mostra a si mesma. Acontece que, quando nos acostumamos com as coisas, elas parecem naturais, mas quando a realidade é filtrada pela ficção, dá para enxergar de um jeito novo.

***

“A escrava Isaura” foi um livro de sucesso na época de sua publicação, mas nada, nada, se compara com a repercussão alcançada cem anos depois pela mesma história, agora transformada em novela e levada ao ar pela Globo, entre outubro de 1976 e fevereiro de 1977.

Sucesso retumbante no Brasil e no exterior. A novela foi vendida para 104 países de todos os continentes. Na França já foi levada ao ar sete vezes, na Alemanha, cinco, e na Suíça, três vezes. Na África foi vendida para países como Congo, Gana, Gabão, Zimbabue. No bloco comunista foi igualmente um sucesso. Em Cuba, por exemplo, o racionamento de energia chegou a ser suspenso para que a população pudesse acompanhar a novela. Na China, Lucélia Santos ganhou o prêmio Águia de Ouro com o voto de 300 milhões de pessoas. Na Polônia milhares lotaram um estádio para assistir a uma competição de sósias para Lucélia e Leôncio – personagens principais da história.

De todos os produtos de exportação da Globo, “A escrava Isaura” ocupa a quinta posição no ranking dos programas mais vendidos.

***

O sucesso da novela chegou ao ponto de levar expressões da nossa língua para outros países. É o caso da Rússia, onde a palavra “fazenda” foi incorporada ao vocabulário.

Para minha surpresa, encontrei a escrava Isaura também na Turquia. Eu estava acompanhando a conversa de um grupo de mulheres turcas, quando percebi que elas utilizavam com naturalidade a expressão “escrava Isaura”. Descobri que a expressão hoje é sinônimo de mulher obrigada a se submeter – ao marido, à sogra ou a quem se julga dono dela. Soube, então, que a novela foi grande sucesso na Turquia e que, provavelmente, ajudou o público feminino a avaliar seus direitos e a evoluir para uma situação mais satisfatória.

Bernardo Guimarães nunca poderia ter sonhado com um futuro tão brilhante para o seu livro.

Por daiane