Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 22 de Janeiro de 2019

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Avô e neto: uma relação de amor e inspiração

, 28 de julho de 2017 às 6h00

Seu Breno Hendges, 78 anos, foi um avô que desde a infância influenciou o neto Bruno Ricardo Meneghini, 18 anos, a tomar gosto pela leitura, fotografias e viagens, entre outras lições que a vida proporciona para poucos. Os dois preservam uma amizade leal e uma conexão fraterna intensa, difícil de se ver em tempos modernos de individualismo social. Vale mais que dinheiro. Ambos moram no bairro São Caetano, e além de sangue do mesmo sangue, foram vizinhos em grande parte do tempo.

Mecânico de veículos pesados e motorista de veículos de passageiros de mão cheia, Breno é uma dessas personalidades que dispensa apresentações. É conhecido em praticamente todo o município e microrregião pelo carisma, prontidão e comprometimento.

Natural do morro Sete Barulhos, em Arroio Grande, iniciou sua carreira profissional ainda na juventude atuando para Transportes Ritt, onde prestava serviços gerais, desde a carga e descarga ao apoio na lavoura. Após servir as Forças Armadas, em Alegrete, por uma década esteve no Paraguai, onde se qualificou na VolksWagen. Retornou para o município em meados da década de 1960, quando prestou serviços mecânicos para a Metropolitana, responsável pela construção da ERS-130, e prefeitura, entre outros clientes. Era um dos únicos que compreendia o conserto de motores Deutch, por isso era altamente requisitado.

Em 1969 se casou com Nívia Maria Fagundes, hoje com 65 anos. Os dois já eram vizinhos e amigos de longa data. O namoro foi de apenas seis meses depois de um reencontro no Salão Schmidt. A festa de casamento ocorreu no Salão do Rockenbach, apenas para familiares e amigos muito próximos. Com o passar do tempo nasceram e cresceram os filhos Madiane e Henrique, também motorista de ônibus. Infelizmente os outros dois, Maico e José, faleceram em decorrência de complicações do parto. Na época, a medicina não era tão avançada.

No mesmo ano em que casou, Breno foi contratado pela empresa de transportes Irmãos Cé, para trabalhar como mecânico da garagem de ônibus, ser motorista do jipe que recolhia alunos no interior. “Não eram tempos fáceis. Antes de morarmos na cidade, saía de bicicleta de madrugada e só voltava de noite, quando minha esposa preparava a marmita para o próximo dia. Enfrentei as cheias do arroio Grande em inúmeras ocasiões”.

Posteriormente atuou na oficina do Posto do Poletto, até 1976, quando foi contratado pela Empresa Arroio do Meio, para ser motorista e mecânico. “As empresas concorrentes diziam que não daria muito certo”. Mas este foi o emprego que proporcionou o maior contato de Breno com o público. Chegava a trabalhar até 18 horas por dia. Era responsável pela rota diária a Passo do Corvo, onde fazia a entrega do Jornal O Alto Taquari aos assinantes, com todo o carinho e cuidado nos dias de chuva. Também fazia o suburbano até Encantado, transporte de estudantes, viagens especiais, bailes e futebol. Era comum o ônibus estar superlotado. Seu principal parceiro era o cobrador Breninho.

Dentre outras incumbências, Hendges ainda era uma espécie de instrutor de postulantes a motorista e cobrador da empresa. Tinha uma relação especial com os estudantes e crianças, incluindo seu filho Henrique; o capitão do Paraná Clube, Eduardo Brock, e por último seu neto, Bruno. “O Brock fazia questão de fazer o roteiro por dentro do Passo do Corvo, só para ouvir meu suposto envolvimento com o Olímpia do Paraguai e o Estádio Defensores Delchacco”, recorda. “Nunca deixei a empresa na mão. Era amigo de confiança da dona Frida Lindelmann e seu filho Carlos. Assim que a gestão da empresa deixou de ser familiar, após pegar atestado pela primeira vez em 2002, devido a fraturar as costelas em um tombo, fui desligado da empresa”.

Entre 2000 e 2011 a relação de Breno com o jornal O Alto Taquari, ficou ainda mais intensa. Nas noites de todas as quintas-feiras, o motorista foi responsável por buscar os jornais na gráfica Treze de Maio em Venâncio Aires, a bordo de sua velha Kombi ou topic da Mistubishi. Paralelamente, realizava viagens para festas, Foz do Iguaçu, entre outros serviços, como ajudar na garagem da empresa Cé. A ocupação era um complemento para aposentadoria do casal e o mantinha ativo no que mais gostava de fazer.

Infelizmente, foi numa viagem ao Paraguai, para mostrar o trajeto ao amigo Elmo Wiesenhünter, que Breno detectou os primeiros sintomas do glaucoma (doença ocular degenerativa sem cura). “A sensação era de pressão alta nos globos. Sentia pontadas na cabeça e a visão começou a ficar turva. No próprio Paraguai realizaram procedimento cirúrgico a laser nos canais das lágrimas. Mas relaxei no tratamento aqui no Brasil, priorizei o serviço e acabei perdendo a visão gradativamente. Só enxergo sombras e vultos. Reconheço as vozes. Meu contato com o mundo é por meio do rádio, não consigo ver as imagens do televisor [...] as vezes sei dos resultados do futebol em decorrência da reação do meu neto que escuto à distância”, descontrai.

É o neto Bruno que mantém Breno informado das notícias do município e região, além de curiosidades, por meio da leitura do jornal O Alto Taquari. Desde a infância, o jovem visita os avós todos os dias e constantemente programa almoços e passeios para curti-los o máximo de tempo possível. Ele é estudante de Técnico em Guia de Turismo, pela EAD de Porto Alegre, por grande influência do avô. Além disso, tem respeito imenso pelos idosos em geral, sempre disposto a ajudar. Tanto é que um dos trabalhos do curso técnico abordou o público da terceira idade. “Foi meu avô que me levava à Feira do Livro, me despertou interesse em Geografia e História, e durante as rotas de ônibus comprava revistas de caminhões e viagens. Quero retribuir de alguma forma com o conhecimento de mundo com que me proporcionou”.

Breno não quer ser um peso para os familiares e acredita que a relação com o neto dá forças para continuar. “Gosto de dar conselhos a toda a família e ver que todos estão bem. Também me dava bem com meu avô que faleceu aos 104 anos”.

Por daiane
Bruno: foi meu avô Breno que me levava à Feira do Livro. Ele despertou em mim o interesse por Geografia e História. Quero retribuir de alguma forma o conhecimento de mundo que ele me proporcionou

Bruno: foi meu avô Breno que me levava à Feira do Livro. Ele despertou em mim o interesse por Geografia e História. Quero retribuir de alguma forma o conhecimento de mundo que ele me proporcionou