Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 24 de Junho de 2017

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Outra historinha de amor

16 de junho de 2017 às 8h44

Ana, mulher madura, divorciada e com dois filhos adultos, decidiu que estava na hora de um namoro. Simples assim. Nada de compromisso sério. Estava carente de algo mais leve, para rebater a solidão dos períodos longe da família. Havia conhecido Alceu, um sessentão que curtia longas caminhadas, intervaladas por bons livros. Escrevera um artigo, publicado na imprensa, enaltecendo a obra de Machado de Assis.

Ambos tinham rotinas semelhantes, eram descasados e ocupados demais com a família. Acabaram esquecendo-se de si. Todos ao redor, com seus respectivos pares e eles a enfrentar uma desagradável sensação de vazio. Não haviam se preparado para a maturidade, ou melhor, não haviam pensado que além de cuidados médicos, a saúde se mantém melhor com um bom grupo de amigos e, se possível, alguém para dividir afeto.

Juntos, quebravam a rotina doméstica em eventos literários, encontros em cafeterias e livrarias, permitindo que o sentimento fluísse naturalmente. Estavam felizes, em sintonia. Em dezembro passado, combinaram um jantar alguns dias antes do Natal. Depois disso, cada um iria dedicar-se aos filhos e netos nas festas de final de ano. Julgaram ser muito cedo para uma aproximação entre as famílias.

Às 21h15min ela estava no restaurante. Quinze minutos depois tentou contato. Alceu não atendeu o celular. Uma hora depois, angustiada, voltou para casa. Deu-se conta que não sabia onde ele morava. Falavam-se apenas por telefone e não participavam das redes sociais na internet. Dormiu triste e preocupada com a ausência inesperada.

Apenas no dia seguinte, recebeu a ligação de um dos filhos dele, a pedir desculpas por apresentar-se daquela maneira, mas o pai fora assaltado e a violência extrema dos bandidos o havia deixado desacordado por muito tempo. Ao recuperar os sentidos, suas primeiras palavras foram sobre o jantar que perdera.

Visitou Alceu no hospital e o ajudou na recuperação. Ele iluminou-se de alegria. A violência do país onde vivem, esse Brasil malcriado, mal-educado e corrupto, ainda tem gente que envia flores com citações inteligentes que não foram roubadas de algum card online.

“Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar. Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende. Amigo a gente entende!” escrevera Ana, aproveitando frases de Machado de Assis. A vida em família continuou intensa. Com livros, discussões raras porque o entendimento é mais fácil quando se tem cultura.

Ana acredita que amar é isso. “Aqueles que se corrompem alimentam crimes e não amam nem a si próprios”. Algo lhes faltou na formação do caráter. Histórias como essa têm perdido espaço nas crônicas de jornais. O egocentrismo exacerbado domina, as ideologias sucumbem porque defendem protagonistas de crimes. Na cadeia falta espaço, mas em um lar bem construído, sempre haverá lugar para a difícil arte de educar com amor e respeito.

Por daiane