Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 29 de Setembro de 2020

O Alto Taquari

Jornal da Semana
Saúde

Psiquiatra afirma que pais e professores devem ficar atentos

, 2 de maio de 2017 às 9h15

A baleia azul é o maior animal que já habitou o planeta Terra. Quando adulta pode pesar cerca de 170 toneladas e medir até 30 metros de comprimento. Apesar de todas as características que fazem deste mamífero um ser grandioso e especial, não é por sua biologia que ele vem se tornando conhecido nos últimos dias. Baleia azul é o nome atribuído de um suposto conjunto de desafios que coloca o jogador em diversas situações de risco.

Em função das consequências que estes desafios causam, pais, professores e profissionais de saúde estão preocupados e em alerta. Por outro lado, autoridades da área de segurança estão empenhadas na busca dos possíveis curadores do jogo, já que incitar alguém a um comportamento de risco é considerado crime.

Apesar do grande alarde que se tem visto, não há estatísticas que comprovem que casos envolvendo jovens com comportamento autolesivo ou suicida estejam ligados diretamente ao jogo. O médico psiquiatra Rafael Moreno, coordenador do Programa de Residência Médica em Psiquiatria do Hospital São José (HSJ) e do Comitê de Prevenção do Suicídio da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS), observa que 15% dos adolescentes têm ideações suicidas, o que não significa, contudo, que estes vão atentar contra si. Em relação ao comportamento autolesivo, como as automutilações, não há estatísticas, mas a classe médica sabe que tais condutas antecedem a tentativa de suicídio.

Para o psiquiatra, os sintomas da depressão adolescente são muito diferentes da adulta. Enquanto o adulto tende a manifestar sua tristeza, o adolescente pode continuar demonstrando alegria e estar interagindo normalmente com amigos e colegas. Pais e professores devem estar atentos aos sinais sutis e também a mudanças de comportamento.

Alterações bruscas de humor, automutilações (cortes pelo corpo), tristeza, aumento ou diminuição do apetite, diminuição do rendimento escolar, isolamento social, perda de contato com amigos e a sensação de se sentir sozinho são alguns dos sintomas comumente apresentados. A recomendação é de que seja buscada a avaliação de um profissional de saúde caso tais ocorrências sejam percebidas. “Os pais não devem esperar muito para procurar ajuda, achando que isso é coisa normal de adolescente. Precisam ter em mente que um adolescente normal não se corta e não pensa em suicídio. Às vezes, na espera pela busca de ajuda é que acontece o pior”, alerta.

Situações de abuso emocional e de grande pressão psicológica tendem a aumentar os riscos de suicídio. Além disso, alterações sociais, como a própria configuração da família, que sofreu grandes alterações nos últimos anos, e a cobrança social por rendimento intelectual de destaque, têm feito com que crianças, adolescentes, jovens e adultos percam a vontade de viver. Moreno salienta que o mercado de trabalho tem se tornado muito exigente, o que afeta diretamente as crianças e adolescentes que cada vez mais têm seu dia a dia voltado para a qualificação, com agendas cheias e, às vezes, com pouco ou nenhum tempo para curtir atividades típicas destas fases da vida.

A série 13 Reasons Why

Uma das séries mais comentadas na internet, a 13 Reasons Why (Os 13 Porquês) exibida pela Netflix, retrata o conturbado cotidiano da adolescente Hannah, que depois de sofrer vários episódios de bullying da escola e de assédio sexual acaba se suicidando. O psiquiatra Rafael diz que tem assistido a série e acredita que ela é importante no que tange ao debate criado acerca de temas recorrentes na adolescência, como o bullying, o cyberbulling, a competitividade em excesso e o suicídio. Contudo, acredita que falta uma classificação indicativa quanto à idade para qual o material é destinado, que deveria ser a partir dos 16 anos.

Moreno também observa que os pais devem ficar atentos ao que os filhos veem na internet e na televisão. Afirma que programas e jogos como estes podem interferir negativamente caso o adolescente já esteja fragilizado. Aos professores, o psiquiatra lembra que a escola deve ter mecanismos que previnam o bullying e o cyberbullying e que, se vierem a ocorrer, não devem ser negligenciados pelo meio escolar.

Prevenção

O coordenador do Comitê de Prevenção do Suicídio da APRS salienta a importância da prevenção. Lembra que o Hospital São José está aberto para auxiliar pessoas que passam sofrimento psíquico e que o serviço de psiquiatria deve ser procurado sempre que forem percebidos os sintomas mencionados acima.

Neste sábado, dia 29, Moreno participa de uma atividade gratuita a ser realizada pela APRS em Porto Alegre, das 9h às 12h. Rafael Moreno e os colegas psiquiatras Christian Kieling e Berenice Rheinheimer vão falar sobre os comportamentos de risco e suicídio na infância e adolescência. A abordagem inclui a repercussão do seriado 13 Reasons Why e do jogo da Baleia Azul, além de orientar sobre como alertar os jovens para os riscos do desafio, bem como identificar comportamentos de risco.

O evento é coordenado pela Dra. Silzá Tramontina, diretora do Departamento de Psiquiatria da Infância e Adolescência da APRS. A atividade ocorre na Associação Médica do Rio Grande do Sul (Amrigs). Outras informações pelo e-mail aprs@aprs.org.br ou telefone (51) 3024.4846, das 14h às 22h.

Por daiane

Psiquiata Rafael Moreno, que é o coordenador do Comitê de Prevenção do Suicídio da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul salienta que pais não devem esperar muito para buscar ajuda