Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 28 de Outubro de 2020

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Sete anos depois, família celebra a vida

, 9 de janeiro de 2017 às 0h00

Vale do Taquari – As marcas da enxurrada ocorrida em 4 de janeiro de 2010, que causou grandes prejuízos nos municípios de Marques de Souza, Travesseiro e Arroio do Meio, fazem parte do passado, mas não foram apagadas da memória de quem perdeu eletrodomésticos, móveis, roupas e calçados, ou seja, praticamente tudo. No interior desses municípios propriedades foram devastadas e animais mortos pela força das águas. Além disso, a família de Liane Camini Grooders, de Travesseiro, quase perdeu seu bem mais precioso, a vida.

Emocionada e com os olhos cheios de lágrimas, Liane lembra da noite mais difícil de sua vida, a qual gostaria de esquecer. Naquele 4 de janeiro chovia muito e o arroio transbordava inundando ruas e casas próximas a sua. Lembra com tristeza das pessoas que tentavam salvar seus pertences adquiridos com muito suor e dificuldade.

Entretanto nada tirava a felicidade da família, que iria receber visita. A irmã que morava em Porto Alegre estava por chegar. À tarde a família foi até Lajeado para buscar a visita que esperava na rodoviária da cidade. Eles não sabiam, mas esse dia ficaria marcado para sempre em suas vidas.

Ao retornarem para Travesseiro, há poucos metros da cidade, nas proximidades do camping do Írio, o Forqueta invadia a pista, impedindo o acesso de carro. Nesse momento a família decide deixar o automóvel em um local seguro e atravessar em um caíque com ajuda de um vizinho. Porém, a força das águas impossibilitou que o caíque, que havia levado um casal, voltasse para buscá-los. “Esse casal conseguiu levar junto meu sobrinho, que acabou atravessando nesse momento. Ficamos lá isolados. Eu grávida de sete meses, meu marido, minha filha de nove anos, minha sobrinha e minha irmã. Primeiramente ficamos em um monte de cascalhos que foi engolido rapidamente pela água, nos obrigando a subir em uma árvore de pequeno porte”, revela.

Muito emocionada, Liane conta que a água subia rapidamente e a pequena árvore já não suportava tantas pessoas em seus galhos. Com a ajuda do marido a família se transferiu para outra árvore, esta um pouco maior. Nesse momento, postes da rede de energia elétrica eram arrastados pela força da água e entravam em curto. “Víamos aqueles postes energizados dando curto circuito muito próximo a nós, mas graças a Deus não fomos eletrocutados”.

A água não parava de subir. O medo, a fome e o frio aumentavam à medida que as horas passavam. A noite se aproximava e a família obrigou-se a transferir-se para outra árvore para não ser levada pela correnteza. Esse foi o momento mais difícil para Liane e toda a família. “Estávamos todos em uma árvore maior com exceção da minha filha Mérope. Agarrada em um tronco menor, ela não conseguia alcançar a mão de meu marido e nem o galho que ele estava alcançando. Foi um momento muito difícil para mim. Depois de muitas tentativas ela conseguiu pegar no galho e assim foi puxada pelo meu marido. Foi quando gritamos para ela segurar firme e não largar. Foi aterrorizante”, conta.

A tensão piorou quando caiu a noite. O contato com a Brigada Militar e o Corpo de Bombeiros foi em vão, sem êxito. Esse foi um dos momentos mais críticos para a família que, isolada, não sabia o que estava por vir. Foram oito horas de medo e horror. Somente às 2h do dia 5, a água deu uma trégua e começou a baixar, momento em que populares conseguiram chegar no local. “Foram horas de angústia e desespero total. Pois não sabíamos se íamos sobreviver”, conta.

Um dia após o acontecimento, um turbilhão de sentimentos vinha à cabeça da dona de casa. Sabia que fisicamente estava bem, apesar do susto, e que o psicológico iria melhorar. “No outro dia doía a minha mandíbula, de tanto que trememos de frio. Fomos sugados pelos mosquitos. Passamos fome, sede, frio e muito medo”, conta.

Sentido para a vida

Após esse dia a dona de casa deu outro sentido à vida e encara as dificuldades de cabeça erguida. Aprendeu a valorizar as pequenas coisas que até então passavam despercebidas. “Tudo vale a pena. Cada coisa ruim que acontece é para aprendermos e melhorarmos. Sempre tem algo bom para tirarmos das dificuldades”, fala. E lembra do bem mais precioso que possui, a família. Conta uma grande alegria que teve após o grande susto, o nascimento da filha Manuella que aconteceu dia 08 de março. “Esse foi o maior presente que posso ter”.

Trauma pode ter desencadeado doença

O trauma deixou marcas na dona de casa. Em 2014 descobriu que possuía uma doença degenerativa chamada Esclerose Lateral Primária. O aparecimento pode estar associado ao trauma que passou, segundo ela. “Descobri que tinha essa doença após ser internada no Hospital da PUC em Porto Alegre. Os sintomas aumentam cada vez mais. O diagnóstico chegou um dia após o meu aniversário no dia 12 de novembro. Mas agora com os tratamentos está estabilizada”, conta.

A Esclerose Lateral Primária (ELP) é uma doença rara neurodegenerativa, dos neurônios motores superiores, apresentando-se como uma síndrome progressiva e lenta. A idade de início situa-se geralmente entre os 40 e 60 anos de idade. “É uma doença bem rara, só ouvi falar de outras duas pessoas no Estado com essa síndrome. Temos um grupo em um aplicativo para conversarmos sobre isso”, conta.

Chamas consomem marcenaria

No dia 05 de março de 2015, a vida prega mais uma peça na família Grooders. A marcenaria da família foi consumida pelo fogo, não sobrando nada. Todas as economias da família estavam investidas no empreendimento que foi consumido pelo fogo no mesmo mês que pagavam a última prestação do empréstimo bancário o qual fizeram para colocar o negócio em prática. Com a ajuda dos amigos e vizinhos a família tenta se reerguer e hoje tocam a marcenaria que foi reconstruída. “Tudo na vida vale a pena. Se estamos aqui é porque temos um propósito. E tudo que aconteceu serve para melhorarmos. Pois sempre há uma coisa boa para tirar das coisas que acontecem”, finaliza Liane.

Água alcançou o teto

A moradora da rua Herbert Arthur Biehl, do bairro Cidade D’Água, em Marques de Souza, a funcionária pública Alexandra Koempfer, lembra da enxurrada e diz que não quer passar por essa situação outra vez. Ela perdeu todos os eletrodomésticos, móveis, roupas e calçados. A água alcançou o teto de sua residência e chegou a arrancar parte da grade que cercava o pátio. “Tivemos que colocar tudo fora. O que a água não levou tivemos que colocar no lixo. Foi máquina de lavar, geladeira, armário, entre outras coisas. Levei 15 dias para limpar a casa e deixar nos conformes novamente. Mas ganhamos muita coisa e conseguimos nos reerguer”, finaliza.

Por daiane

Ilhada, a familia precisou subir em árvores para não ser arrastada pela força das águas. Grávida de sete meses de Manuella, Liane, o marido Valdir, a irmã e a filha de 9 anos ficaram por oito horas segurando-se em galhos para não serem arrastados