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Comportamento

Como lidar com um familiar com transtorno mental

, 11 de novembro de 2016 às 10h23

Não é fácil aceitar o diagnóstico de um transtorno mental. Doenças psiquiátricas como esquizofrenia, depressão, transtorno bipolar e transtornos ansiosos, por exemplo, se manifestam através de sintomas que são tão obscuros quanto imprevisíveis, e podem se tornar uma fonte grande de angústia. Os tratamentos existem, mas quando se trata de saúde mental, não há certezas. Cada caso é um caso. Esse excesso de dúvidas piora ainda mais a angústia que já se sentia; porém, quase tão difícil quanto ser diagnosticado com um transtorno mental grave é ter um familiar nessa posição. Gostaríamos de poder livrar aqueles que amamos de todo e qualquer sofrimento, e quando percebemos que isso não é possível, sentimo-nos culpados e impotentes.

Conforme o médico com residência em psiquiatria, Stephan Meirelles, doenças mentais graves frequentemente tem um componente biológico importante. “Elas nem sempre são resultado de uma criação ruim, e provavelmente não poderiam ter sido evitadas por nada que um familiar ou amigo pudesse ter feito diferente. Mesmo após o diagnóstico é comum o surgimento de diversas emoções, geralmente fortes e desagradáveis”. Ele alerta que é normal que um familiar sinta aflição, mágoa ou constrangimento pelo comportamento de uma pessoa mentalmente doente, que pode ser difícil de entender e de lidar. Muitas pessoas podem sentir raiva de algumas circunstâncias e até mesmo da pessoa que foi diagnosticada. E, mesmo que não pareça lógico, pais frequentemente desenvolvem algum grau de culpa pela doença mental dos filhos.

“Os pais, particularmente, precisam reajustar seus planos e expectativas quanto ao futuro do filho diagnosticado com um transtorno mental, e isso gera uma intensa aflição, que é normal e perfeitamente compreensível. Tão importante quanto manter a própria saúde para poder dar suporte ao filho doente é preservar as relações com os outros membros da família. Se houver filhos saudáveis, eles podem acabar recebendo menos atenção e mais responsabilidades para assumirem, o que pode ser uma fonte de ansiedade e frustração para eles. Nesse caso, é importante que se tenha momentos de interação individual e exclusiva com os filhos saudáveis, valorizando o apoio deles em relação ao irmão doente”, ressalta Stephan.

O casamento é desafiante por si só. Quando um membro do casal adoece mentalmente, a situação pode se tornar ainda mais complexa. Para alguém que já está sob o estresse da preocupação com a doença do cônjuge, ter que passar mais tempo cuidando da causa ou dos filhos pode ser especialmente difícil. “Nesses momentos de maior dificuldade, surgem dúvidas quanto à própria capacidade de sustentar tal alteração na dinâmica familiar; portanto, é importante que se tenha em mente que o transtorno psiquiátrico tende a melhorar com o tratamento, e que as atitudes do parceiro saudável tem um papel fundamental na recuperação do outro. A sobrecarga de funções domésticas e parentais é transitória na maioria dos casos. Manter uma postura otimista aliada a uma expectativa realista quanto ao desenvolvimento da doença é de grande valia”, frisa.

Enquanto o familiar se ajusta às emoções e ao estresse de amar alguém com um transtorno mental, fontes de apoio são imprescindíveis. Parentes de outros portadores de transtornos mentais podem oferecer um apoio valioso, pois compartilham dos mesmos desafios, e grupos de familiares são criados com esse intuito. Profissionais de Serviço Social também podem auxiliar aos familiares e doentes.

“Quando descobrimos que alguém que amamos está doente, é difícil nos focarmos em qualquer outra coisa, mas é importante que as nossas próprias necessidades não sejam deixadas de lado. Atividades básicas como sono e refeições tendem a ser subestimadas e negligenciadas, mas devemos ter em mente que se nos mantivermos saudáveis teremos melhores condições de ajudar quem precisa de nós. Geralmente leva-se certo tempo para aceitar as mudanças na estrutura familiar e estabelecer uma nova rotina, mas não se deve esquecer que esses doentes podem, sim, viver uma vida rica e satisfatória – assim como seus familiares”, conclui o médico.

Por daiane