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Jornal da Semana
Economia

Para presidente do Codevat, crise política e investigações de corrupção ampliam as dificuldades brasileiras

, 17 de julho de 2015 às 9h41

A presidente do Conselho de Desenvolvimento do Vale do Taquari (Codevat), a economista, professora universitária e doutoranda em Desenvolvimento Regional, Cíntia Agostini, fala sobre a crise econômica que se abateu sobre o Brasil e quais suas consequências para o Vale do Taquari. A expectativa é de que esta fase ruim para a economia brasileira seja contornada até o final de 2016.

AT – A crise mundial que atinge os países mais ricos como Estados Unidos, Japão e os da União Europeia, em especial a Grécia desde 2008, ainda persiste. Há poucas evidências de expansão das economias com o agravante de que a crise também atinge fortemente países do BRICS como Brasil, Rússia e China. Baixos índices de crescimento atingem os indicadores sociais com ameaças de desemprego, inflação alta, perda do poder aquisitivo. Quais foram, na sua ótica, os principais erros cometidos pelas economias mais ricas e também agora pelas intermediárias como o Brasil?

Cíntia Agostini – A crise que se desencadeia em 2008 vem se formatando desde o início dos anos 2000 nos países ditos desenvolvidos, ou seja, as economias maduras, essencialmente a comunidade europeia, EUA, Japão e demais. Mas não se tratam efetivamente de erros ou acertos e sim, de uma lógica própria do sistema capitalista de produção. O objetivo primeiro deste sistema é a geração de lucros, ou seja, os retornos, a ampliação dos mercados, os ganhos maiores e os retornos melhores para os investimentos e, desde a sua existência enquanto sistema de produção, entre os séculos XIV e XV, busca esse objetivo maior. Em alguns momentos através de ampliação de mercados, com os ditos “descobrimentos”, através de guerras e conflitos por disputas de territórios ou riquezas e até mesmo com a globalização, ampliando os mercados. A partir dos anos de 1980, com a possibilidade das empresas tornarem-se grandes conglomerados mundiais e a desregulamentação do sistema financeiro, que amplia enormemente as aplicações no sistema financeiro, que não necessariamente e não é, compatível com o sistema produtivo. Os anos de 1980-1990 foram períodos de ampliação da visão global dos investimentos, da ampliação de empresas instalarem-se em qualquer parte do mundo, das pessoas comprarem via internet qualquer produto de qualquer lugar, praticamente. Vários fatores associados ampliaram as possibilidades de crédito e consumo. Temos então a crise de 2008, que não difere muito da crise de 1930, no entanto esta inicia pelo crédito imobiliário, onde seus ativos foram se valorizando incompativelmente com a “vida real”. Aí acontece o “efeito dominó”, quando as pessoas não conseguem pagar mais sua hipotecas, as dívidas já haviam se transformado em outros ativos, vendidos para o mundo todo e o efeito sai do mundo financeiro e vai para o mundo real. As empresas sofrem desvalorizações consideráveis e os governos novamente tornam-se ativos, como foi pós-crise de 1930 e tornam-se sócios das principais empresas e bancos, por exemplo, nos EUA. Alguns países são economias mais sólidas (ex. EUA, Alemanha), outros não se vincularam completamente a essa lógica global (ex. Inglaterra), no entanto, têm outros países, os ditos em desenvolvimento (ex. BRICS) e até aqueles considerados pobres (ex. africanos), que sofrem muito mais para se recompor diante de momentos de crises. Até mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI), que pregou, durante esse período recente, a taxa de juros como a medida para controlar a inflação e atrair capitais, e quando de crises, medidas recessivas, de corte de gastos, de adequação de orçamento, de enxugamento de serviços públicos, para retomar o crescimento das economias, reconsidera atualmente que práticas recessivas podem não trazer os resultados conforme esperados, haja vista o caso grego. A Grécia decresce faz cinco anos e as sugestões do FMI e Banco Central Europeu é que corte mais gastos, cobre mais impostos, isso fará a economia desaquecer mais ainda.

Se há algum erro, que pode ser considerado assim, hoje o sistema financeiro é fim em si mesmo e não mais meio para o setor produtivo, ou seja, os investimentos não precisam mais ser valorizados produzindo algo, somente na bolsa de valores ou na compra de títulos os retornos podem ser muito maiores que no sistema produtivo. Existem estimativas que indicam que o valor que circula no sistema financeiro é 10 vezes maior do que aquele que circula no sistema produtivo. Os países estão todos vinculados a esta lógica própria e maior do sistema capitalista, assim, precisam fazer de tudo para atrair e manter esses capitais em seus territórios.

No caso brasileiro, na primeira década deste século, aproveitamos o crescimento dos países citados acima e principalmente da China, para produzir e vender comodities, não somente produtos agrícolas, mas também minério de ferro, petróleo, entre outros. Quando a crise inicia, fizemos aquelas chamadas medidas anticíclicas, o governo estimulou o consumo da população brasileira, com redução de impostos, crédito ampliado, e isso fez com que comprássemos mais. No entanto, nossas compras não necessariamente são de produtos nacionais, ou seja, individualmente é muito bom comprar de um site chinês, no entanto, é uma empresa brasileira que não está produzindo para nós consumirmos e para esta empresa não ser competitiva existem diversos aspectos. No entanto, nosso erro foi não perceber que o prazo para essas medidas passou do limite, ou seja, com as pessoas comprando mais e a oferta não sendo interna, a inflação começou a subir. Além disso, o mundo, para se recuperar da crise, começou a priorizar suas economias internas, os preços das comodities desvalorizaram-se e deixamos de ter os ganhos que tivemos em outros momentos com essas vendas. Tudo que ficou represado durante dois anos, por exemplo, reajuste de preços administrados (impostos, energia elétrica, água, etc.) pelo governo, foram reajustados de uma só vez no início deste ano e impactaram no nosso bolso e na inflação brasileira. No entanto, nossa economia não está crescendo, pois está desestimulada pelos altos juros, custos elevados, perda de competitividade, entre outros fatores. Ou seja, um cenário duplamente difícil de ser superado: inflação e crescimento baixo.

Além disso, há um contexto internacional a ser identificado, de conflitos, de disputas territoriais, de posições diferenciadas, aí precisamos ter cuidado em identificar os movimentos da China, oferecendo dinheiro ao mundo todo, dos EUA, tentando retomar sua posição hegemônica, da Rússia, querendo retomar a dualidade que existiu no século passado onde também era uma potência mundial, entre outros atores que atuam neste contexto.

No caso brasileiro, era sabido que o ano de 2015 não seria simples, havia uma postergação de ações em função da Copa e das Eleições, no entanto, a crise política e as investigações de corrupção que estão ocorrendo ampliam enormemente as dificuldades brasileiras.

O ajuste fiscal proposto até agora ainda não foi aprovado no Congresso, em meio a todos esses ajustes para a sociedade, alguns setores tendo reajustes consideráveis. A leitura do presidente do Congresso, Eduardo Cunha é muito preocupante quando afirma “que as decisões acontecem na política e que a economia a gente adequa depois”. Isso permite várias leituras, mas principalmente indica que uma situação complexa como essa precisa de medidas em igual condição, mas não as que considerem os acordos políticos como prioritários. A prioridade deveria ser a sociedade brasileira.

“Invariavelmente todos somos atingidos por esta situação”

AT – Na adoção de medidas práticas o que, na sua opinião, o governo brasileiro está fazendo de modo eficaz para que possamos sair desta crise? E o que poderia fazer?

Cíntia – Não acredito que estas medidas são as mais eficazes, poderiam ser outras, que tivessem menos efeito sobre as empresas produtivas (pequenas e médias) e a maioria da população, ou seja, empregados, pessoas das classes média e baixa. Algumas das medidas propostas são necessárias, adequam e regram temas importantes, no entanto, são as empresas que pouco conseguem buscar dinheiro no setor financeiro, pois os juros estão mais altos, são as pessoas que pouco conseguem comprar a crédito pois os custos estão mais altos, são alunos de escolas, universidades que estão recebendo menos incentivos para estudar, empresas com menos incentivo para produzir e o sistema financeiro anunciando lucros maiores. Bem, o que deveria ser feito é aquilo que todos sabemos que deve ser feito a longo prazo: reformas estruturais, reforma previdenciária, Reforma Tributária, reforma política, entre outras que alteram os programas e políticas públicas, além do pacto federativo e dos regramentos brasileiros. No entanto, temos clareza que essas são medidas que não se resolvem no curto prazo e extremamente difíceis de serem implementadas nas condições atuais. No curto prazo, o governo poderia e deveria estimular e não reprimir a oferta, compatibilizar essa com a demanda para não gerar inflação, tributar conforme ganhos e rendas e não prioritariamente pelo consumo, tributar mais setores que não o são tributados, setor financeiro, grandes fortunas, grandes patrimônios, proporcionalmente. Desburocratizar sem perder os controles das dívidas, cobrar efetivamente aqueles que devem aos cofres, menos de 2% dos devedores dos governos realmente pagam suas contas. Obviamente nenhuma medida feita de forma isolada possui resultados efetivos, devem ser diversas ações e atitudes, de curto prazo e de médio e longo prazos.

E todas as medidas, sejam as que estão sendo implementadas e outras que poderiam ser, só serão se houver uma consciência do Executivo, do Legislativo e do Judiciário de que devemos prezar pela sociedade brasileira, que não teremos como atender a todos em todos os momentos, mas que políticas, programas e grupos sociais devem ser priorizados para termos menos concentração de renda e maior justiça social.

AT – Uma das saídas encontradas para contornar a crise é a flexibilização da jornada de trabalho, com redução proporcional de horas trabalhadas e salários. Na sua opinião esta é uma medida positiva em médio e longo prazo?

Cíntia – Todas as ações, inclusive a de flexibilização da jornada de trabalho neste momento são positivas, pois as taxas de desemprego que eram muito boas, girando em torno de 5% já estão próximas a 7% (maio/2015). E isso dificultará muito mais a retomada do crescimento brasileiro. No entanto, essa é medida de curto prazo, e não pode influenciar em outros direitos sociais. Com razão os movimentos que defendem os trabalhadores se preocupam com todas as medidas que estão sendo implementadas agora, como a questão dos abonos salariais e seguro-desemprego, porque estes efetivamente regram melhor a relação empregado e empregador. Mas estas medidas podem abrir precedentes para outras que gerem prejuízo aos trabalhadores, como por exemplo, a discussão da terceirização, que deve ser atualizada. Mas deve ter um cuidado muito grande com a maioria da população, que são empregados.

AT – De que modo os municípios do Vale do Taquari estão sendo ou serão atingidos pela crise e o que fazer para que sejamos menos afetados? Quem será mais ou menos afetado pela crise, tanto no setor público quanto privado?

Cíntia – Invariavelmente todos somos atingidos por esta situação. No início do ano tivemos o susto dos aumentos e ajustes, agora os efeitos na vida real começam a aparecer, custos dos produtos mais altos, ou seja, inflação, desemprego, corte de gastos e custos tanto no setor privado como público.

Os governos municipais recebem menos do Fundo de Participação Municipal, e essa é grande parte da receita dos municípios; estão recebendo menos recursos federais, sejam das emendas parlamentares comprometidas, como de recursos de convênios e programas federais e estaduais; possuem atrasos de pagamentos federais e estaduais; estão tendo que assumir dívidas federais e no nosso caso, dívidas do Estado do RS.

Observação necessária, o caso do RS é pior do que outros, pois o Estado está com sérios problemas, com uma crise que é estrutural, mas que agora tomou proporções e está afetando a todos, com o Decreto que será de 360 dias que posterga pagamentos de fornecedores, por exemplo, faz com que várias empresas que já tenham executado serviços ou vendido produtos, não estejam recebendo o valor devido. O orçamento deste ano de 2015 ainda não está aberto.

No caso das empresas, as que deveriam receber recursos federais ou estaduais, estão com pagamentos atrasados. Por exemplo, obras do DNIT, que postergou parte dos pagamentos para março de 2016; o FIES que está atrasado e as instituições de ensino receberam parte dos recursos até o momento; empresas que prestaram algum tipo de serviço na cadeia do petróleo, que além dos problemas de valor no mercado internacional, foram afetados pelas investigações de corrupção na Petrobrás. Além disso, setores como automotivo e construção, com menor crédito, com programas mais restritos, fazem com que produzam menos, promovam férias coletivas e até mesmo desempreguem. Tudo isso afeta empresas do Vale do Taquari ligadas indiretamente a essas cadeias produtivas.

Nos serviços públicos, saúde, educação, assistência social, habitação, entre outros, todos são programas que estão com maior dificuldade de serem geridos e mais, possibilitando menor assistência à população. Novamente no caso gaúcho isso impacta mais ainda.

E nós população, estamos pagando mais por tudo que adquirimos e alguns de nós perdendo emprego. Quanto menor a renda, mais afetada a população é pelos aumentos de preços, ou seja, mais perda do poder de compra acontece. Além disso, aqueles que necessitam de serviços públicos, por melhor que sejam na maioria dos municípios, são mais afetados e ficam restritos, haja vista estamos presenciando na saúde, na condição de algumas de nossas escolas, na indisponibilidade de servidores na segurança, na dificuldade de estudarem.

Por fim, o mercado prevê que sairemos desta situação no final do próximo ano, considerando que outros aspectos não fiquem pior no meio deste caminho. Mas, sem que as decisões no Executivo, Legislativo e Judiciário não sejam voltadas para a sociedade brasileira, sem que a visão passe de um olhar individual para a necessidade do bem coletivo, de que a educação é a chave para qualquer coisa que queremos, que a melhoria da qualidade de vida deve acontecer para todos e isso pressupõe melhor distribuição de renda, não haverá situação no Brasil que melhore e logo aí em frente não sofra com novas crises.

O Vale do Taquari possui, na média, melhor condição que outras regiões, municípios, empresas e os cidadãos já estão fazendo sua parte, gestão de custos, corte de gastos, adequação de orçamento, e sabemos que outras crises haverão, mas temos que nos prevenir e adequar nossa vida a esse contexto.

Por daiane