Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 06 de Junho de 2020

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Jornal da Semana
Educação

“A escola deve ser construída por todos”

, 17 de janeiro de 2015 às 9h30

Em solenidade na Praça de Eventos da Secretaria da Educação, o secretário Vieira da Cunha empossou, na tarde de segunda-feira, 29 Coordenadores Regionais de Educação. Além deles, os coordenadores adjuntos também assumiram os cargos. Para a 3ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE) com sede em Estrela foi nomeado o arroio-meense e pedetista Nelson Paulo Backes, que mora no bairro Bela Vista. A professora Greicy Weschenfelder, peemedebista, é a nova coordenadora adjunta.

Professor estadual há mais de três décadas, Backes é formado em Ciências Físicas pela Unisc. Por quatro mandatos seguidos, foi diretor da Escola Estadual de Ensino Médio Guararapes, no Centro. Ao longo da carreira de professor, também deu aulas em escolas particulares. Backes já exerceu diversos cargos públicos, como o de vereador, Secretário Municipal de Administração, de Obras e da Agricultura. Entre os anos de 1993 e 1996, foi prefeito de Arroio do Meio.

Na tarde de quarta-feira o coordenador recebeu a reportagem e falou sobre as expectativas e desafios nos próximos quatro anos à frente da 3ª CRE. Ele comentou que está orgulhoso em ocupar o cargo que é de extrema importância regional, estadual e até no país, dizendo que sabe quanto a educação é importante, e está fazendo o que gosta.

O Alto Taquari – Quais são os principais desafios ao assumir a 3ª CRE?

Nelson Paulo Backes – Em primeiro lugar temos que melhorar os índices de aprovação de nossos estudantes que são gritantes. Temos que trabalhar de forma coesa, e em grupos de diálogo para verificar o que está acontecendo. A educação no RS caiu muito nos últimos anos e décadas. Já fomos referência em educação no país. Precisamos melhorar estes indíces novamente.

Fizemos uma reunião para verificar porque existem tantos problemas no 1º ano do Ensino Médio noturno. Por qual razão há diferença de rendimento entre o 1º ano diurno e o noturno. Não pode ter uma diferenciação tão grande de reprovação e desistências entre os turnos. Temos outros desafios referentes à questão de prédios, recursos humanos, da modernidade e tecnologia, e bibliotecas. São desafios constantes. Para fazer uma boa educação, tem que melhorar tudo isso. Mas não vamos ser deuses para resolver essas situações, porém faremos a nossa parte e nos esforçaremos em favor do estudante. A escola não deve ser aquela instituição que só transmite o conhecimento. Ela deve formar o ser humano dando orientação e formação para que o jovem possa participar nas discussões na escola ajudando a resolver as situações problemáticas, dando opiniões para melhorar o ambiente escolar.

AT – Como o senhor avalia a educação estadual no Vale?

Backes – Fomos empossados na segunda-feira e constatei que a nossa situação é boa se comparada com outras Coordenadorias do Estado. Locais esses com depredação de prédios, escolas sem laboratório de informática e sem bibliotecas. Fiquei estarrecido diante de comentários de colegas que falaram sobre isso. Mas acho que temos muito a crescer na questão de aprovação do estudante. É necessário aprovar por conhecimento e não para passar esse aluno de ano, para que esse indivíduo possa sair da escola com uma definição para a vida. Ele tem que construir na escola o seu eu, buscando o caminho do bem com conhecimento, e o professor dever ser o colaborador nessa construção. É claro, a ajuda da família é importante.

AT – Como o senhor vê a participação financeira da União? O governo federal poderia contribuir mais?

Backes – A maioria dos estados estão quebrados. A maior parte da arrecadação em tributos vai para o governo federal retornando pouco para estados e municípios, mas as obrigações e os compromissos estão na base. Poucos são os retornos para o Estado desenvolver as práticas necessárias. Exemplo disso é a questão do piso dos professores que deve ser pago, mas é preciso recursos para isso, e a saída é o governo federal. A presidente disse em seu discurso de posse que a educação será uma das prioridades de seu governo, então é hora propícia para colocar seu plano em prática. Pagando o piso, os profissionais fazem acontecer. Incentivados os professores vão render muito mais. Basta dar uma injeção através da valorização profissional e pedagógica para mudar os rumos da educação.

AT – E as escolas que não tem sede própria? Alguma previsão de mudança?

Backes – Se por um lado existe essa situação, por outro, há escolas sem estudantes. Em primeiro lugar se atende o aluno, não importa se é em prédio alugado ou se há apenas um aluno por sala. A nossa prioridade é que esse aluno esteja estudando. Se perto ou longe da escola não importa, o importante é que esteja na sala de aula. No interior de Pouso Novo há uma escola com dois ou três estudantes, mas eles são atendidos, independente de quantos são. O principal objetivo é manter todo mundo na escola.

AT – Como está o transporte para alunos que moram longe das escolas?

Backes – Nós vamos dialogar com as prefeituras para propor parceria. Essa foi a orientação que nos foi passada em uma reunião com o Secretário Estadual da Educação. Pretendemos sentar e conversar com os prefeitos da região para entrar em um acordo sobre essa situação. Sabemos que há regiões com problemas no transporte escolar. Mas tanto Estado como município têm obrigações em relação à educação.

AT – Alguma previsão para as escolas que estão no aguardo das demandas da Consulta Popular?

Backes – Não há previsões. O Guararapes, de Arroio do Meio, tem recursos a receber para a construção de um ginásio da Consulta Popular do governo do Olívio Dutra, mas já prescreveu. E tem valores para receber da última Consulta Popular Cidadã. Não sei como o atual governo vai agir para suprir essa demanda. Pelas palavras do governador José Ivo Sartori podemos perceber que a situação é difícil e complicada, acho que não vamos receber esses valores. Dessa forma, o programa vai perdendo a credibilidade. Esse é um dos motivos pelo qual o número de pessoas que participam do pleito vem diminuindo nos últimos anos.

AT – Como o senhor avalia o resultado do Enem divulgado essa semana, em que mais de 500 mil alunos tiraram nota zero na redação? O que pode ser feito para reverter esse quadro? Onde está a falha?

Backes – Precisa acontecer algo muito diferente para revertermos essa situação. A falha está na organização, nos recursos destinados, na qualificação do recurso humano que é o professor. Os profissionais precisam se atualizar. É necessário que o professor tenha uma relação e uma empatia com o estudante, caso contrário não terá uma produção adequada. Deve haver uma ligação entre estudante e professor, o qual, muitas vezes possui formação do tempo do regime militar. Dessa forma a ação do professor não condiz com realidade. Não estou dizendo que eles estão errados. A formação dele foi essa. Mas deve haver uma mudança de comportamento e de consciência para melhorar esses índices. O estudante também deve ter apoio dos pais na educação básica. Hoje está tudo muito fácil, o aluno tem tudo nas mãos, ganha tudo: transporte, merenda e livros. Também é preciso discutir essa situação. Não acontece nada com o aluno que vai para a escola, ganha tudo e reprova por vários anos. Isso tem que mudar.

Por daiane