Jornal O Alto Taquari  .  Arroio do Meio, 16 de Setembro de 2019

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A rotina de quem trabalha com a morte

, 1 de novembro de 2014 às 10h00

Com a proximidade do Dia de Finados, a morte passa ser um tema mais frequente entre as pessoas, porém existem profissionais que trabalham durante todo o ano com os mortos.

É quando a vida de uma pessoa acaba que o trabalho dessas pessoas começa. São profissionais que usam conhecimento e experiência para proporcionar um fim digno às pessoas e confortar os parentes de quem se foi. São coveiros, zeladores, agentes funerários e floristas. Esses trabalhadores muitas vezes são esquecidos, mas têm um papel fundamental no difícil momento da perda.

Local de muito trabalho

As pessoas que visitam o cemitério no feriado de Finados encontram o local cuidado, limpo e pronto para receber milhares de pessoas. Essa organização é um dos papéis dos zeladores que garantem a limpeza do espaço e deixam tudo perfeito no cemitério.

É o caso do zelador Armando Barkert. Ele trabalha há 15 anos no Cemitério Católico de Arroio do Meio, no bairro Bela Vista. Aos 71 anos, já aposentado, optou por continuar trabalhando. Relata que gosta dos afazeres no cemitério. Ele chega no local por volta das 6h45min e sai às 18h já que tem muito serviço para fazer. O trabalho de Barkert é variado. Ele tira as flores estragadas dos túmulos, limpa e capina alguns pontos onde há invasão de inço. “Faço de tudo, agora estou passando o lava-jato em todo o cemitério”, falou.

Depois de trabalhar em fábrica de calçados e como pedreiro, o senhor de 71 anos não acha ruim o trabalho nesse local onde a maioria das pessoas prefere não estar, e disse que não tem nenhum receio em relação aos mortos. “Temos que ter medo dos vivos, esses sim podem nos fazer mal”, disse.

Ele relata que nesse local faz muitas amizades com familiares daqueles que já se foram e que é bem conhecido na cidade. A única coisa que Barkert reclama é do sol forte nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. “Quando o sol está muito forte, é ruim, porque a luminosidade reflete nas lápides e a sensação térmica aumenta ainda mais. Quando chego em casa minha mulher pergunta por que estou tão vermelho”, finalizou.

Local de paz e tranquilidade

Hilário Halmenschlager é sócio-proprietário de uma empresa que presta serviços de construção de sepulturas e túmulos para cemitérios de Arroio do Meio, Capitão e Travesseiro. O início de tudo foi em 6 de agosto de 1968, quando trabalhou de servente de pedreiro para a construção de uma sepultura. Iniciou a trabalhar no ramo a convite do irmão que o ofereceu serviço após retornar do quartel. Já no ano de 1975 abriu a primeira empresa que ficava localizada após a Ponte de Ferro, já no município de Lajeado onde iniciou a trabalhar por conta própria. De lá para cá não parou mais. Dedicou a vida a esse trabalho que a maioria das pessoas prefere não fazer.

Ele fala que a pessoa que trabalha nessa área tem que estar ciente de que pode ser chamado a qualquer hora do dia ou da noite, para preparar o túmulo, pois a morte não tem hora para chegar. “Não tem sábado, domingo, Natal, feriado, chuva, sol quente. Quando morre alguém temos que estar prontos. Por isso, tem que gostar da profissão”, disse.

Ele comenta que o cemitério é um local tranquilo, e que não tem receio dos que já se foram. Fala que o momento do enterro é o mais crítico para a família que está se despedindo, principalmente quando é de uma pessoa jovem ou criança. “Mas a tristeza está nas pessoas que levam esse sentimento consigo. Após isso, o local se torna calmo. Pois este sentimento está nas pessoas, e não no cemitério.”

Halmenschlager fala do trabalho com normalidade, até mesmo quando descreve um dos serviços mais difíceis, mas não para ele, que é o de mudar os restos mortais de um túmulo para outro, ou até mesmo quando os túmulos são abertos para depositar outro familiar no mesmo espaço. “São coisas normais”, disse.

Ele explica que na maioria das vezes em que o túmulo é aberto, restam poucas coisas, a madeira do caixão apodrece, restando somente roupas e ossos. Ele fala ainda que quando é aberto, o cheiro é muito forte. “A roupa não se deteriora. Então dobramos aquela roupa com os ossos e juntamos com a pá e colocamos em um saco plástico de 100 quilos, para mudar de local. Mas não são todos que fazem esse tipo de serviço, aí normalmente sobra para mim”, disse.

As flores mais vendidas

Neste domingo, dia 02, os cemitérios estarão preparados para receber fiéis que realizarão homenagens, missas e orações para celebrar o Dia de Finados. As pessoas costumam levar flo-res. Coroas com flores artificiais têm saídas, mas flores naturais como crisântemos e calanchões são as mais vendidas em uma floricultura do Centro de Arroio do Meio. A funcionária Ivanir Medim fala que as vendas nessa época do ano aumentam em 50% em relação a outras épocas. “No cemitério, as flores podem durar de uma semana a mais de um mês, dependendo de como forem cuidadas. Se forem regradas diariamente a duração pode ser bem maior, caso contrário a duração é menor”, disse.

O significado das flores

O pastor Jair Erstling, da Igreja Luterana São Paulo, ex¬plica que as flores têm o significado de demonstração de carinho e afeto pelos que já partiram. As flores vivas simbolizam que a vida continua. “Levar flores vivas aos túmulos de entes queridos é uma forma de homenagem que reforça a esperança do reencontro para a vida eterna no céu, o que nos lembra a vitória de Cristo sobre a morte”, disse o pastor.

Por daiane