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Jornal da Semana
Comportamento

Serenidade e qualidade de vida

, 15 de junho de 2012 às 10h15

Importante para nossa qualidade de vida, a serenidade pode ser entendida como uma forma de se relacionar com as coisas. Saiba mais sobre o tema através dos questionamentos feitos à psicóloga Bernardete Pretto.

AT – Qual a importância da serenidade para a qualidade de vida?

Psicóloga Bernardete Pretto – Para responder a esta pergunta, é necessário pensar primeiro no que é serenidade. Confesso que, para escrever a este respeito, tive que buscar lá no meu íntimo, um pouco distante da consciência, aquilo a que esta palavra me remete. Também fui ler um pouco de filosofia, tentando encontrar nela algo que me iluminasse. Encontrei no dicionário sinônimos como “tranquilidade”, “que denota paz e tranquilidade de espírito”. E fiquei pensando que este conceito é difícil de definir porque, na atualidade, essa é uma característica que se encontra distante, bem distante da vida das pessoas. Infelizmente… Infelizmente porque o nosso ritmo de vida agitado, acelerado, quase exaustivo na maior parte do tempo, tem nos afastado da tranquilidade, bem como da generosidade, da compaixão, da gratidão, da tolerância e de tantas outras virtudes que contribuem para que sejamos mais humanos e mais felizes. Ou seja, acredito que a serenidade é, sim, de fundamental importância para a qualidade de vida, entendida no seu sentido pleno e principalmente no sentido de condição para a felicidade. Não acredito que ela seja uma constante em todos os momentos da vida, mas ela pode ser entendida como um estado de espírito, uma forma de se relacionar com as coisas da vida. Estar sereno é, talvez, poder manter-se equilibrado diante dos fatos e circunstâncias da vida, é não perturbar-se desnecessariamente e desmedidamente por aquilo que não podemos modificar. É também poder aceitar, de certa forma, nossas limitações e as limitações que a vida nos impõe.

AT – Desligar-se do mundo exterior é fundamental para a serenidade plena? Por quê?

Bernardete – Em certo sentido, diria que sim, é necessário desligar-se do mundo exterior para atingir a serenidade. No entanto, é preciso entender este “desligar-se” não como uma pura negação do exterior, o que implicaria num estado de alienação, mas sim como uma possibilidade de diminuir a interferência deste exterior. Seria, como falei na questão anterior, encontrar o equilíbrio entre exterior e interior, entre o mundo e a minha intimidade, minha vida pessoal. Podemos entender isto mais claramente se pensamos o quanto somos, a todo momento, desafiados a deixar um pouco de lado os problemas do nosso cotidiano para pensarmos e nos darmos conta de nós mesmos, das nossas necessidades, gostos, desejos… Se não nos desligamos um pouco da realidade, ela nos massacra e nos afasta de nossa essência.

AT – Por que é tão difícil manter ou ter serenidade? As características do mundo atual têm influência sobre nossa serenidade (excesso de trabalho, responsabilidades, informações, etc)?

Bernardete – Sem dúvida, como já mencionei, as características e exigências do mundo atual influenciam na capacidade de mantermos a serenidade. Não há como duvidar do fato de que é extremamente complicado para a maioria das pessoas “desligar-se” dos problemas e poder, por exemplo, agir com calma, refletir tranquilamente, dar tempo ao tempo. Até mesmo porque estas características, antigamente vistas como qualidade, hoje são julgadas como traços de pessoas preguiçosas, não “antenadas”, não qualificadas para competir e se dar bem na vida. Assim, entende-se que pessoas serenas precisam ser muito fortes para resistir a esta pressão externa e não se deixarem afetar pelo comportamento da massa, dos que acabam ditando a forma de pensar, de agir, de ser no mundo.

AT – É possível aprender a tornar-se uma pessoa serena? Como? Ou isso já é uma característica relacionada à personalidade própria de cada pessoa?

Bernardete – Acredito que seja possível aprender a lidar com a vida de uma forma serena, pois não vejo esta como uma qualidade dependente unicamente da personalidade própria de cada pessoa. Ou seja, não penso que algumas pessoas nasçam serenas e outras não, porém, acredito na influência de fatores que atuam desde o início da nossa vida e que interferem na forma como interagimos com o mundo. Por exemplo, é comprovado que bebês que tenham vivido tanto intrauterinamente quanto nos primeiros anos de vida em ambientes tranquilos, acolhedores, com pessoas afetivas e com uma visão positiva do mundo, mostram-se na vida adulta muito mais equilibrados interiormente. Mas mesmo pessoas que não tenham vivenciado experiências tão positivas podem desenvolver a serenidade com o auxílio de algumas mudanças de atitude. A primeira delas e a mais importante, do meu ponto de vista, é querer de fato, verdadeiramente, mudar seu comportamento. Depois, fazer com que isto aconteça, ou seja, ter atitudes. Estas atitudes muitas vezes implicam em mudar completamente nossos hábitos, o que não é nada fácil. E por fim, manter-se vigilante para não se afastar de si mesmo novamente.

AT – A ideia de que o ser humano nasce sereno, mas perde essa característica à medida que cresce é correta?

Bernardete – Na verdade, não é o fato de crescermos, por si só, que nos tira a serenidade. Também não penso que todos os seres humanos nasçam serenos, porque para muitos de nós a experiência do nascimento foi traumática. Acontece, porém, que a realidade nos força a reagirmos às circunstâncias da vida e nos conduz a pensar que estar sereno é não ter reação, ou seja, é não crescer. É como se só pudéssemos aceitar e enxergar este estado de serenidade nos bebês, porque eles ainda não precisam enfrentar o mundo sozinhos. No entanto, volto a dizer, estar sereno nos permite enxergar o mundo de uma forma muito mais realista, porque afasta-nos em certa medida e temporariamente daquilo que precisamos ver com mais clareza. Para mim, a serenidade é uma das virtudes que deveria ser ensinada mais e mais às pessoas, pois certamente teríamos muito menos problemas no mundo se ela fizesse parte de nossas vidas.

Por daiane