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Comportamento

Renúncia e crescimento

“Não somos apenas a soma de nossas escolhas, mas também das nossas renúncias.” A frase de Martha Medeiros da coluna O medo de errar (ZH, 25 de setembro), será analisada pela psicóloga Maria Angélica Hartmann Gräff, que tratará um pouco sobre a diversidade de opções que o mundo contemporâneo nos oferece

, 16 de outubro de 2011 às 0h29

Na opinião de Maria Angélica, a frase é “excelente”, na medida em que crescer implica em renunciar: “Renunciamos ao colo materno quando conseguimos andar com nossas próprias pernas. Renunciamos à infância, quando chega à adolescência e, por fim, renunciamos a esta, quando o mundo adulto se coloca à nossa frente de maneira integral. Esse é basicamente o processo de crescimento.”

Para a psicóloga, a coluna de Martha levanta questionamentos ao quanto o mundo moderno, justamente por apresentar tamanha diversidade de informações, produtos e escolhas, faz ou obriga que renunciemos cada vez mais a mais coisas. “Por exemplo, a Psicologia é uma ciência fascinante, intrigante, mas o Direito perpassa ou transversa com a Psicologia, não me refiro às leis, mas aos comportamentos dos indivíduos diante de situações como ciúmes, abusos, violência, suicídio e tantos outros que a ciência jurídica também se ocupa. Mas em algum momento precisamos escolher qual profissão escolher. Renunciar a uma para se dedicar a outra, e isso não significa desconhecer a outra”, explica.

Viver é escolher, renunciar e com isso amadurecer

Viver é isso, completa a profissional, escolhemos, renunciamos, sofremos pela renúncia, mas conseguimos nos realizar com a outra escolha e, assim, somando, nos tornamos adultos coerentes e cientes de nossas escolhas e de nossas renúncias. E esse caminho não deixa de ser tortuoso, conflituoso, mas é necessário para crescer. De acordo com Maria Angélica, não escolher é renunciar a uma capacidade preciosa, que é a capacidade de pensar, de direcionar nossa vida. Muitas opções, muitas chances de acertar e de errar também. “O medo de errar surge como uma ‘provocação’ ao indivíduo, mas a capacidade de ‘pensar os pensamentos’ ( como dizia Wilfred Ruprecht Bion psiquiatra/psicanalista nascido na Índia em 1897) é humana e deve ser exercitada durante o processo de crescimento. Certezas? Apenas de que nascemos e que um dia morreremos. Mas como e quando não sabemos.

Se errarmos em nossas escolhas, o importante é reconhecer o caminho ou a decisão e tomar novamente o leme da vida e recomeçar. Morremos muito mais em vida quando deixamos de recomeçar diante dos erros, fracassos e frustrações. Por isso, Maria Angélica cita a célebre frase dos gaúchos “Não está morto quem peleia” como um convite à vida. “Então, escolher ‘a’ ou ‘b’, renunciar, perder, ganhar, parir, velar, laborar, amar, viver e morrer são verbos que nos pertencem por inteiro de ‘a’ a ‘z’. E para finalizar, pertencer é também se apropriar da vida que temos e a ela devemos nossas melhores atitudes e escolhas e ponto final”,conclui.

Por Jaqueline Manica